Sobre o índio Galdino - lições não aprendidas

Passaram-se vinte anos da morte de Galdino Jesus dos Santos. A história do índio pataxó, incendiado enquanto dormia em um ponto de ônibus de Brasília, por um grupo de rapazes abastados, traz lições talvez ainda não aprendidas. Galdino havia participado das manifestações no dia do ìndio em defesa das terras de seu povo no sul da Bahia.

Divido com meus alunos, desde então, os artigos de Clovis Rossi, Marilene Felinto e Gilberto Dimenstein, publicados na Folha de São Paulo, por apresentarem análises lúcidas e emocionadas que parte de ângulos diferentes.

O mínimo a fazer é recontar e refletir, o que faço em minhas aulas, como se fosse possível redimir minimamente uma dívida com Galdino e os seus.

Autoflagelação indevida

Clóvis Rossi
São Paulo - A boa praxe jornalística mandaria que a coluna de ontem tratasse do caso do índio Galdino, assassinado em Brasília.
Não o fiz por um motivo bem simples: não sabia o que dizer. Continuo, aliás, sem saber, talvez porque há fatos que dispensam palavras.
Mas uma coisa convém dizer: me parece um equívoco culpar o Brasil pelo episódio. De alguma forma, até o presidente Fernando Henrique Cardoso o fez, ao propor, no Canadá, que pensemos ``muito mais seriamente sobre nós próprios no Brasil''.
Episódios do gênero ocorrem também em outros países e com frequência. Na semana passada, os jornais publicaram fotos de soldados da civilizadíssima Bélgica torturando, com fogo, habitantes da Somália que supostamente deveriam proteger, como membros da força de paz da ONU.
Na igualmente civilizada Alemanha, vira e mexe alguém põe fogo em casas de imigrantes turcos ou africanos, com o pessoal dentro. Morre muita gente dessa forma.
A lista de exemplos é inesgotável. Não estou defendendo o Brasil, até porque não sou dos que se obrigam a amar a pátria só por ter nascido nela. O Brasil tem mais defeitos do que qualidades, mas não é, em matéria de violência irracional, essencialmente diferente de outros países.
É claro que a impunidade para certo tipo de criminosos ajuda a estimular a violência. Mas suspeito que, no caso do crime de Brasília, foi apenas ator coadjuvante. Animais não refletem sobre a impunidade no momento de atacar suas presas. E esses jovens brasilienses são animais ou, ao menos, se comportaram como tais.
Suspeito que esse tipo de episódio ocorre ou porque o gênero humano, nasça onde nasça, não raro apresenta graves defeitos de fábrica ou porque a civilização dita moderna está gerando tal desprezo pela vida e pelo semelhante que acaba concedendo uma tácita, mas indiscriminada, licença para matar.
O paciente índio e os monstros da classe média
Marilene Felinto
Se fosse filme e o paciente -o índio pataxó hã-hã-hãe Galdino Jesus dos Santos- fosse inglês, a guerra seria outra, glamourizada pela ficção, uma guerra mundial, igualmente sem sentido, mas de que o cinema ainda retira largos exemplos de solidariedade.
O filme mais premiado pela academia dos Oscars este ano foi "O Paciente Inglês", notório caso de solidariedade de uma enfermeira que abandona tudo para cuidar de um suposto soldado desconhecido, queimado dos pés à cabeça num acidente de guerra.
Mas o paciente índio que morreu na madrugada da última segunda-feira, queimado vivo por cinco rapazes de Brasília, é apenas crua realidade, de uma guerra bem nossa e atual: a guerra da imolação dos pobres. Galdino não foi queimado por ser índio ou negro, mas porque seria "mendigo". Seus assassinos são tão inconscientes que não distinguiriam um índio de um japonês.
Seus assassinos são apenas "coisas", que também o "coisificaram". Os cinco rapazes são exatamente filhos da "nova" classe média brasileira, essa que anda exibindo por aí o poder de adquirir coisas, muitas coisas, antes consideradas de luxo: um Honda Civic, uma picape, computador pessoal, TV a cabo, microondas, roupas de grife tipo Banana Republic, férias em Miami e, em Brasília, um poderoso adesivo de carro oficial de algum ministério ou procuradoria.
Coisas que atearam fogo numa outra coisa sem valor. Esse tipo de caráter que vai se formando bem no seio da juventude brasileira -esses delinquentes de classe média, esses "valentões" juvenis- seria chamado de "o tipo da consciência coisificada" por um teórico da educação, comparável à mentalidade nazista.
Somente uma sociedade sem valores, ou em que os valores se limitam às coisas materiais -sociedade que sobrepõe o capital e o lucro à pessoa humana, como disse recentemente a Igreja Católica em crítica ao neoliberalismo brasileiro-, somente essa sociedade de evidente degradação moral cria monstros como esses rapazes imbecis de Brasília.
Que tipo de formação eles recebiam em casa -um é filho de juiz, outro, parente de ministro- para se tornar esse lixo humano? Em que tipo de escola estudaram esses animais?
O fato de essa tragédia ter ocorrido em Brasília é apenas simbólico da nossa falta de moral. Afinal Brasília, construída para automóveis e não para a pessoa humana, é o centro da corrupção, da degradação e da impunidade nossa. Somos todos culpados da educação desses ratos de Brasília.
Em crônica genial chamada "Brasília", a escritora Clarice Lispector já entendia, décadas atrás: "Brasília foi construída sem lugar para ratos. Toda uma parte nossa, a pior, exatamente a que tem horror de ratos, essa parte não tem lugar em Brasília. Eles quiseram negar que a gente não presta. (...) Mas os ratos, todos muito grandes, estão invadindo. (...) Brasília é o fracasso do mais espetacular sucesso do mundo. Brasília é uma estrela espatifada. Estou abismada."

Órfãos de pais vivos
Gilberto Dimenstein

A violência contra os índios não é a constatação mais importante a ser extraída do assassinato de Galdino Jesus dos Santos -os cinco jovens talvez nem sequer soubessem quem estavam incendiando.
Numa tendência ainda desconhecida pela sociedade brasileira, acostumada a relacionar violência com pobreza, os registros de delegacias policiais revelam crescimento nos atos de selvageria cometidos por adolescentes abastados.
Segundo a Polícia Militar de São Paulo aumentaram 300%, nos últimos dois anos, as brigas envolvendo jovens nas regiões ricas da cidade. A tendência é confirmada nas Varas da Infância.
No Rio de Janeiro, informa o chefe da Polícia Civil, Hélio Luz, são realizadas cada vez mais buscas em universidades atrás de delinquentes.
Estamos diante de uma doença contemporânea nas classes média e alta, mas antiga entre os pobres: o orfandade de pais vivos.

Psicólogos americanos têm procurado entender fenômeno semelhante nos EUA. Acusam os pais de serem tão ou mais culpados pela delinquência dos filhos.
Autor do best seller "Inteligência Emocional", Daniel Goleman acompanha investigações sobre o comportamento dos jovens. As pesquisas indicam, segundo ele, crescentes sinais de agressividade.
Há uma aposta generalizada nos meios acadêmicos americanos de que, por trás desses desvios, estaria a desestruturação familiar. Pais não têm tempo para os filhos.
Para compensar o sentimento de culpa provocado pela distância, adultos não impõem limites e até mimam as crianças, independentemente do comportamento. Deixam para a escola ensinar ética a educação sexual; se complicar, contratam psicólogos.

Juntem-se a isso a sensação brasileira de que apenas pobre acaba na cadeia, as cenas de violência banalizadas pela televisão, o despreparo das escolas para lidar com a agressividade e a cultura brasiliense onde pirralhos se sentem autoridade porque são filhos de autoridade -e vamos ter algumas pistas sobre como chegamos ao final do século carbonizando seres humanos a poucos quilômetros da praça dos Três Poderes.

PS - Está à disposição por e-mail lista com endereços, telefone e nomes dos contatos de programas considerados exemplares nos Estados Unidos para prevenção contra violência.

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