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Mostrando postagens de Outubro, 2014

A COTOVIA E OS SAPOS - fábula

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Era uma vez uma sociedade de sapos que viviam no fundo de um poço profundo e escuro, do qual absolutamente nada se via no mundo. Eram governados por um enorme Sapo-Chefe, um valentão que afirmava, sob pretextos um tanto dúbios, ser o dono do poço e de tudo quanto nele saltava ou rastejava. O Sapo-Chefe jamais movia uma palha para se alimentar ou se manter, vivendo da labuta de diversos sapos-trabalhadores com os quais ele compartilhava o poço. Estes - pobres criaturas! - passavam todas as horas de seus dias escuros e muitas de suas noites tenebrosas a se matar na umidade e no lodo para encontrar os vermes e insetos que engordavam o Sapo-Chefe.            Ora, de vez em quando uma cotovia excêntrica voava para dentro do poço (sabe Deus por quê!) e contava para os sapos todas as coisas maravilhosas que vira em suas viagens pelo imenso mundo lá fora. Falava do sol, da lua e das estrelas, das montanhas altaneiras, dos vales férteis e dos vastos mares procelosos, e ainda da delícia de ex…

Em que mundo você vive? - Matheus Pichonelli

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Mais do que o resultado da eleição, chama a atenção, nestes dias seguintes à abertura das urnas, o raciocínio rabiscado por parte dos eleitores para justificar a decisão do voto.     São muitos os que se dizem insatisfeitos com o rumo do mundo. E que atribuem aos políticos de diferentes matizes, sobretudo vermelhos, a culpa pelo estado das coisas: da ignorância da nação, pela qual constroem suas edificações maléficas, ao entrave aos nossos sucessos particulares. “Eu não tenho casa na praia ou carro do ano, mas só porque, em algum gabinete de Brasília, alguém decidiu pegar o que era meu por direito e investir naquele povinho que nunca estudou, nunca quis trabalhar e não tem outra ambição na vida a não ser botar filho no mundo e pendurar a conta nas costas do Estado.” 

            Pode parecer incrível, mas é mais ou menos isso o que se ouve nas rodas de conversa em tempos de eleição acirrada como tem sido esta. Uns indignados até têm carro do ano e casa na praia. Outros acabam de voltar…

Idiota à Brasileira - Adriano Silva

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Ele não faz trabalhos domésticos. Não tem gosto nem respeito por trabalhos manuais. Se puder, atrapalha quem pega no pesado. Trata-se de uma tradição lusitana, ibérica, reproduzida aqui na colônia desde os tempos em que os negros carregavam em barris, nos ombros, a toilete dos seus proprietários, e eram chamados de "tigres" - porque os excrementos lhes caíam sobre as costas, formando listras.  O Perfeito Idiota Brasileiro, ou PIB, também não ajuda em casa. Influência da mamãe, que nunca deixou que ele participasse das tarefas - nem mesmo pôr ou tirar uma mesa, nem mesmo arrumar a própria cama. Ele atira suas coisas pela casa, no chão, em qualquer lugar, e as deixa lá, pelo caminho. Não é com ele. Ele foi criado irresponsável e inconsequente. É o tipo de cara que pede um copo d'água deitado no sofá. E não faz nenhuma questão de mudar.  O PIB é especialista em não fazer, em fazer de conta, em empurrar com a barriga, em se fazer de morto. Ele sabe que alguém fará por ele. Ent…

O paciente índio e os monstros da classe média - Marilene Felinto

Se fosse filme e o paciente -o índio pataxó hã-hã-hãe Galdino Jesus dos Santos- fosse inglês, a guerra seria outra, glamourizada pela ficção, uma guerra mundial, igualmente sem sentido, mas de que o cinema ainda retira largos exemplos de solidariedade.
O filme mais premiado pela academia dos Oscars este ano foi "O Paciente Inglês", notório caso de solidariedade de uma enfermeira que abandona tudo para cuidar de um suposto soldado desconhecido, queimado dos pés à cabeça num acidente de guerra.

Mas o paciente índio que morreu na madrugada da última segunda-feira, queimado vivo por cinco rapazes de Brasília, é apenas crua realidade, de uma guerra bem nossa e atual: a guerra da imolação dos pobres. Galdino não foi queimado por ser índio ou negro, mas porque seria "mendigo". Seus assassinos são tão inconscientes que não distinguiriam um índio de um japonês.

Seus assassinos são apenas "coisas", que também o "coisificaram". Os cinco rapazes são exatamente…

A "não-casa" e o "não-ônibus" - Marilene Felinto

A periferia sabe que não faz parte do tecido urbano. Odeia a cidade, que só não a odeia com igual intensidade porque não a conhece de perto. Tudo na periferia é não: a arquitetura da invasão constrói a "não-casa", o perueiro dirige o "não-ônibus". "Perueiro até os ossos", diz o adesivo da perua clandestina que circula pela hoje inadministrável cidade de São Paulo.

A violência dessa categoria de motoristas, os perueiros, a virulência com que eles reagem às investidas de legalização, incendiando ônibus, ameaçando, dirigindo criminosamente, espanta.

"Perueiro até os ossos": como interpretar essa frase senão como uma mensagem de que o motorista está disposto a matar ou morrer? A revolta dos perueiros expressa o ódio represado durante todo um século por uma população expulsa dos confortos do urbanismo, vítima da exclusão social e espacial.

Desde os tempos da chamada Revolta da Vacina (1904), os historiadores e sociólogos alertam o poder público para …