ENEM: meu desabafo

Ultimamente, nada me irrita mais que a fuga da responsabilidade individual! Falo isso em relação às últimas informações do ENEM. Explico: se algumas questões vazaram, se cadernos foram mal montados, se provas foram surrupiadas na gráfica, alguém fez isso - há nisso tudo um sujeito agente. Quase não se pensa que a realização do Exame, que hoje merece a confiança de milhões de estudantes e... milhares de instituições de ensino, exige uma logística infinitamente mais complicada que o sistema eleitoral.

Alguém a quem se confiou algo, que tinha o dever de resguardar sigilo ou prestar um serviço de qualidade foi, no mínimo, antiético, desonesto, corrupto - corrompeu-se ou foi corruptor. Se a intenção era privilegiar apenas os seus alunos, agiu vergonhosamente ao preparar um aulão ou um material com questões roubadas. Os próprios alunos, ilusoriamente favorecidos, responderam à imprensa com tranquilidade: "a gente está preparado, não precisamos dessas questões". "Podem aplicar outra prova, estamos preparados."

Quem produz, prepara e testa as questões do ENEM, sabe que aquele processo envolve 6 milhões de vidas. Seis milhões de famílias, seis milhões de candidatos já fragilizados e estressados por tudo que ele representa. A grande maioria deles recém-saiu de uma greve de professores que durou cerca de 100 dias e jamais terá condições de concorrer a uma faculdade particular sem o patrocínio do Pro-Uni. Muitos deles têm uma via sacra de vestibulares já agendados, e um atraso acarretará em perda de dinheiro, quando mais um ano de trabalho.

Não consigo evitar o pensamento de que a esperteza, o levar vantagem ou o desejo de ver o circo pegar fogo, cooperando para o fracasso de uma iniciativa do governo, tenham motivado a irresponsabilidade. Estou cansada de ver a angústia dos estudantes. Estou farta de explicações simplistas: o ENEM vazou! Não. O ENEM não vazou: alguém fraudou, roubou, violou o sigilo. Alguém pensou tirar algum proveito disso: dinheiro, prestígio, sucesso para os seus. Alguém desonrou a confiança nele depositada.

Um profissional, não importa qual seja o seu nível na escala hieráquica está ali por merecer a confiança de outros. Todos sabem - e não precisa que ninguém nos diga - que sigilos profissionais precisam ser preservados, sob pena de gerar dor e prejuízo e acarretar, quando não um processo, uma demissão por justa causa.


Não se pode continuar apenas culpando os responsáveis pelo processo, os que trabalham no INEP. Os jovens vestibulandos não precisam de mais esse fogo cruzado.

Mais que uma eleição nacional, o ENEM precisa contar com pessoas do país inteiro como fiscais de sala, seguranças responsáveis pelo material, diretores e coordenadores das zilhões de escolas onde se realiza o exame. O indivíduo precisa assumir a responsabilidade que lhe cabe. É hora de parar de apontar tudo e todos menos a si mesmo. Quem temos sido diante de uma situação que exija honestidade? Como sempre, na corrupção, só conhecemos a imagem do corrompido, nunca daquele que corrompeu. - Mel

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