O recado de Senna - Carlos Alberto di Franco

O fenômeno Ayrton Senna repercutiu no meu curso de pós-graduação. A cadeira Ética Jornalística,
voltada ao estudo da imprensa de qualidade, não poderia fugir à análise do impressionante banho de mídia que marcou a cobertura de uma comoção histórica. 

Senna, ao contrário do que afirmam alguns, não foi um produto artificial da mídia. Foi a manifestação acabada de uma dramática carência. Um estudo da seção de cartas dos leitores, delicado sensor da opinião pública, confirma a hipótese.


“É difícil expressar o sentimento do povo neste doloroso momento”, sublinhava um leitor do Estado. “Logo ele, um dos raros brasileiros que nos dava orgulho. Não dá para nos conformarmos. Enquanto isso, somos obrigados a viver sem segurança, ameaçados sempre, sem esperança de dias melhores, e a aturar esse Congresso cheio de corruptos”, concluía. Para um leitor do JB, “a morte de Senna significa o desaparecimento do único brasileiro que podia erguer a bandeira do Brasil no exterior e era aplaudido e respeitado”.

O recado é transparente: o brasileiro está humilhado, cansado da rotina dos escândalos, do esgar de congressistas que sepultam a revisão constitucional com a irresponsável ligeireza com que se encerra uma conversa de botequim, da tendência autista que parece dominar os becos da Ilha da Fantasia.

O esporte, protagonizado pelo brilho competente de Ayrton, foi também uma grande catarse. A bandeira brasileira, arriada no palco político, tremulava no circuito da Fórmula I. A morte de Senna, repentina e dramática, teve o efeito de um seqüestro da esperança.

Na homenagem póstuma, grandiosa e sem precedentes, aflora uma das fragilidades nacionais: nosso latente sebastianismo. A história brasileira está marcada pela nostalgia de uma mística liderança. O movimento pelas diretas-já, a eleição e morte de Tancredo Neves, a Assembléia Nacional Constituinte e o projeto modernizador do caçador de marajás foram, entre outros, exemplos marcantes dessa tendência.

Tinha razão Nelson Rodrigues, quando afirmava que o líder humaniza a multidão: aquilo que é massa “assume forma, sentimento, coração de homem. E, ao mesmo tempo, o medo que junta as multidões morre em nossas almas”(...) “O líder tem coragem por nós, e ama por nós, sofre por nós, e traz a verdade tão sonhada”.


A síndrome do ídolo, no entanto, costuma desembocar numa quimera e num perigoso anonimato. Vive-se do sonho, do espetáculo, do triunfo fácil. A cobertura da morte do nosso tricampeão, embora tecnicamente impecável, acordou o Antônio Conselheiro que repousa na alma de cada cidadão.

Os ídolos cumprem um papel importante. São geradores de entusiasmo e alegria. Ayrton Senna foi um semeador de otimismo. O Brasil esquecia suas mazelas, e os nossos domingos se vestiam de verde-e-amarelo. Mas a segunda-feira estava lá. Implacável. Com suas luzes e suas sombras.

Precisamos redescobrir o brilho que se esconde na aparente sombra de uma segunda-feira. Um país só se constrói com muito trabalho. O empenho profissional, freqüentemente anônimo e pouco vistoso, pode não se traduzir no fulgor de uma manchete, mas, certamente, contribui para a construção da sociedade.

Senna foi um bom trabalhador. Sabia que a vitória não era fruto do acaso, mas a resultante de pequenos esforços, do trabalho bem feito, responsável, perseverante. Os degraus do pódio são precedidos de sacrifício, anonimato e recomeço. Esse foi o seu melhor recado, o exemplo que vale um registro.

Jornal do Brasil, 16/05/95 - Carlos Alberto di Franco foi meu professor de Ética na Faculdade de Jornalismo da Fundação Cásper Líbero, em São Paulo.



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